Porque o Homo Sapiens briga com a realidade

Dorothy Martin andava ouvindo vozes. Dona de casa de Chicago, ela psicografava extraterrestres de uma outra dimensão.
– Uma inundação vai destruir os EUA – ela escreveu.
Desse delírio, nasceu uma compreensão fundamental sobre como o ser humano pensa. Sobre como reagimos ao mundo, seja na política ou nos negócios, na defesa do nosso time de futebol ou na maneira que interpretamos a trama da novela.
Naquele ano de 1954, quando Dorothy fez sua previsão, as pessoas encontraram algo em que acreditar. Principalmente porque ela prometia a salvação, na forma de uma espaçonave que os levaria dali para um plano superior. O grupo se transformou em uma seita, composta por pessoas que deixavam para trás suas famílias, casas, empregos e empreendimentos.
No ano seguinte, quando o mundo estava para acabar, um psicólogo americano chamado Leon Festinger se infiltrou na seita. Seu relato do que aconteceu virou o livro clássico “Quando a profecia falha”. Ali surgiu a descrição do mecanismo que conhecemos como dissonância cognitiva.
Festinger notou que nenhum fato ou argumentação afetava a fé inabalável dos crentes. Mesmo quando o desastre não ocorreu, a reação foi um reforço da união entre os seguidores de Dorothy. E o que eles fizeram, nós também fazemos. Todos nós. Quando o ser humano se vê diante de algo que contradiz o que acredita, a informação é processada por duas regiões do cérebro, o córtex cingulado do sistema límbico e a insula anterior. Essas áreas são as mesmas que produzem sensações como dor e nojo. Portanto, nossa ansiedade se torna física, dolorosa até.
Assim, se mostrar fatos e números a pessoa vai questionar as fontes. Se apelar para a lógica, ela não vai enxergar. Se disser que simplesmente discorda, ela vai se afastar. Isso não é má-fé ou ignorância, é a dissonância cognitiva a pleno vapor.
Mas resista à tentação de interpretar essa história de acordo com suas próprias crenças, de associar os doidos de Dorothy com aquele desafeto que discorda de você na política, no futebol ou no formato do planeta Terra. Esse mecanismo não é exclusividade de gente demente, mas um gatilho cerebral que nos permitiu construir a civilização humana.
O desenvolvimento da linguagem deu aos primatas a habilidade de transmitir fatos mais precisos, o que melhorou a cooperação entre grupos. Mas pesquisas demonstram que os grupos se tornavam instáveis quando atingiam cerca de 150 indivíduos. A partir daí, a discordância desembocava na dissidência, que por sua vez provocava cisão.
O que realmente ergueu a civilização foi a criação do primeiro sistema de crenças, embutido em uma narrativa que trazia os valores necessários para que um grande grupo conseguisse colaborar. Repetindo, para reforçar: crença, narrativa, valores, colaboração. Todo sistema que você conhece, por mais cruel que seja, tornou possível que milhões de pessoas caminhassem em uma mesma direção. Não só o sistema político ou econômico, mas também a religião ou a cultura empresarial que você tanto admira. Nada mais humano que essa capacidade de acreditar.
Por isso, aquele fato que não se encaixa incomoda tanto. São milhares de anos nos ensinando que vale a pena apostar no que o seu grupo aposta. O problema é que a realidade possui o poder mágico de contradizer qualquer sistema organizado de pensamento. A grande sacada de Festinger foi justamente demonstrar o funcionamento desse estresse mental.
O interessante é que o sistema de crenças foi desenvolvido ao longo de milhares de anos para pudéssemos sobreviver e manter uma certa estabilidade psíquica. E ele está em todo lugar. Como relata Yuval Harari em seu livro Sapiens, pode ser um sistema político, uma religião, uma convicção sobre como sua vida familiar deve funcionar ou como se deve atender um cliente na empresa. Qualquer coisa que organize o mundo para você, que lhe permita ser funcional e feliz. Foi essa organização mental que nos fez diferentes dos neandertais. Nossos primos conseguiam operar em comunidades limitadas, de até 150 membros. Quando o Homo Sapiens começou a criar suas histórias, surgiu uma espécie de pacto que nos permitia interagir com o sujeito que morava no outro extremo da vila. Acreditar nas mesmas coisas tornou a civilização possível.
Portanto, o doido seguidor da Dorothy não é somente o troll, o radical ou o fundamentalista.
Também somos eu e você.
Viva com isso.

 

via Rogério Godinho

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